Óscar Paul tinha muita informação inútil na cabeça
Televisão de tubo (corcunda) - Fran Jacquier Ler é inútil.
Muita gente tem medo de dizer isso, mas é. Isso, claro, exceptua alguns génios, porque esses existem.
A razão maior é que a nossa ideia de utilidade é muito material. Mesmo coisas como o amor têm, para nós, uma medida quase clara, com vários degraus e até quanto vale cada acto de amar, talvez excepto quando nos pedem para explicar o amor.
Então, se olharmos para a questão assim, ler é um acto inútil porque, a não ser que estejas a seguir um livro de instruções naquele preciso momento, qualquer outro livro é, pelo menos, não-útil no imediato (vou considerar a leitura para um teste como uma forma de instrução). E, se ler leva tempo, compreender verdadeiramente o que se lê leva ainda mais. As frases encantam, mas o suco precisa de algum tempo para fermentar. Até as instruções, repara, entram melhor quando alguém te mostra o caminho e tu vais acompanhando os gestos.
Daqui conclui-se a inutilidade da leitura.
Isto não deve ser traduzido para ‘aprender é inútil’. Há pouco disse que a informação passa melhor pela fala e pela acção.
Então por que razão esse conhecimento aparentemente inútil é importante?
Porque te constrói.
É isso aí.
Quem tem pressa pode parar aqui.
…Continua…
Ontem, Cabo Verde estreou-se no Mundial, empatando a zero com a Espanha. Depois do jogo, vi um estado de WhatsApp de um amigo que contava a origem do nome de Vozinha, o guarda-redes cabo-verdiano, nosso herói do jogo. O nome vinha dos tempos de infância: vivia com os avós e, sendo competitivo, quando perdia um jogo ou levava uma surra, ia lá queixar-se. Então, os outros rapazes acabaram por chamar-lhe Vozinha.
“Cabo Verde está mesmo no Mundial!”, pensava eu, como dizemos nós por aqui. Porque para nós, sonhadores de mambas dormentes, que picam com pena dos moçambicanos, para não os matarem de alegria, poupando-lhes o incómodo de comemorar alguma coisa boa, Mundial é um só: o de futebol.
Quando acabei de ler a explicação, pensei:
- Essa é a informação mais inútil que já li.
Começou como desapontamento. Mas depois, por causa do exagero, ri-me ao lembrar-me do Óscar Paul.
O Óscar Paul relatava um jogo sem esquecer jogador nenhum nem deixar detalhe nenhum escapar, até dos golos que alguém marcara lá na aldeia com puru — tens de ler puru com dois “u”s e um acento semi-agudo entre os dois; em xitswa, puuru é bola de trapos.
Eu e o Toni pensávamos que o Óscar Paul só podia ter resmas de papel espalhadas pela mesa, ele de óculos-lupa, lendo todos os detalhes delicadamente. Mas, na verdade, ele apenas recuava na memória, vendo-se sentado ao lado de qualquer jogadorzinho, gravando cada um dos seus momentos com a bola, desde o primeiro toque notável. Não importava se moçambicano, argelino ou uruguaio: todos saíam dali com uma história convincente do seu valor.
Víamos e ouvíamos aquilo ali na televisão. Na nossa televisão. Na altura em que o Óscar Paul tinha muita informação inútil na cabeça.
Não sei quase nada dele hoje, mas sei que relata na SuperSport.
Hoje, a nossa televisão já não existe. E eu não pago televisão.
Nota: Este é o primeiro de muitos textos que vão incluir palavras em xitswa. Daqui em diante, utilizarei por vezes uma grafia não canónica, mas faço-o por entender que é a forma mais correcta de escrever. Um exemplo disso, neste texto, é a palavra puuru. Em xitswa, provavelmente é ‘puru’.
