Óscar Paul tinha muita informação inútil na cabeça

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Nyikiwane
Cenas | 17 de junho | 6 min de leitura
Televisão de tubo (corcunda) Televisão de tubo (corcunda) - Fran Jacquier

Ler é inútil.

Muita gente tem medo de dizer isso, mas é. Isso, claro, exceptua alguns génios, porque esses existem.

A razão maior é que a nossa ideia de utilidade é muito material. Mesmo coisas como o amor têm, para nós, uma medida quase clara, com vários degraus e até quanto vale cada acto de amar, talvez excepto se nos pedirem para explicar o que é o amor.

Então, vista dessa forma, ler fica inútil porque, a não ser que estejas a ler um livro de instruções que estás a seguir naquele momento, qualquer livro é inútil naquele momento (vou considerar leitura para um teste como instrução). Admiro os que lêem um livro e lhes muda ali logo no momento; para mim leva um tempo. Frases encantam, mas o suco precisa de fermentar um pouco. E repara que até as instruções são melhor recebidas quando alguém te mostra como se faz e tu vais fazendo.

Daqui podemos tirar uma conclusão: ler não tem utilidade.

Isto não deve ser traduzido para ‘aprender é inútil’. Há pouco disse que a melhor forma de passar informação é pela fala directa e pela acção directa.

Então por que razão a informação inútil é importante?

Porque te constrói.

É isso aí.

Quem tem pressa pode parar aqui.

…Continua…

Ontem, Cabo Verde estreou-se no Mundial, empatando a zero com a Espanha. Depois do jogo, vi um estado de WhatsApp de um amigo que contava a origem do nome de Vozinha, o guarda-redes cabo-verdiano, nosso herói do jogo. O nome vinha dos tempos de infância: vivia com os avós e, sendo competitivo, quando perdia um jogo ou levava uma surra, ia lá queixar-se. Então, os outros rapazes acabaram por lhe dar o apelido de Vozinha.

“Cabo Verde está mesmo no Mundial!”, pensava eu, como dizemos nós por aqui. Porque, para nós, sonhadores de mambas dormentes, que picam com pena dos moçambicanos, para não os matarem de alegria, para lhes pouparem o incómodo de terem de comemorar alguma coisa boa, Mundial é um só: o de futebol.

Quando acabei de ler a explicação, disse para mim:

- Essa é a informação mais inútil que já li.

Começou como desapontamento. Mas depois, por causa do exagero, ri-me ao lembrar-me do Óscar Paul.

O Óscar Paul relatava um jogo sem esquecer jogador nenhum nem deixar detalhe nenhum escapar, até dos golos que alguém marcara lá na aldeia com puru — tens de ler puru com dois “u”s e um acento semi-agudo entre os dois; em xitswa, puuru é bola de trapos.

Eu e o Toni pensávamos que o Óscar Paul só podia ter resmas de papel espalhadas pela mesa, ele de óculos-lupa, lendo todos os detalhes delicadamente. Mas, na verdade, ele apenas recuava na memória, vendo-se sentado ao lado de cada jogadorzinho, gravando cada momento seu com a bola desde o primeiro toque notável. Não importava se moçambicano, argelino ou uruguaio: todos saíam dali com uma história convincente do seu valor.

Víamos e ouvíamos aquilo ali na televisão. Na nossa televisão. Na altura em que o Óscar Paul tinha muita informação inútil na cabeça.

Não sei quase nada dele hoje, mas sei que relata na SuperSport.

Hoje, a nossa televisão já não existe. E eu não pago televisão.

Nota: Este é o primeiro de muitos textos que vão incluir palavras em xitswa. Daqui em diante, utilizarei por vezes uma grafia não canónica, mas faço-o por considerar que é a forma mais correcta de escrever. Um exemplo disso, neste texto, é a palavra puuru. Em xitswa, provavelmente é ‘puru’.

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Khanimambo AJ e Toni por ler o rascunho.
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